A roda como ritual
Transmissão, hibridação e colonialidade na consolidação do Choro
Palavras-chave:
Choro, Hibridação, ColonialidadeResumo
Resumo. Este trabalho analisa a roda de Choro, no período de consolidação do gênero nas primeiras décadas do século XX, como ritual de transmissão de uma tradição musical que se inventa retrospectivamente. Parte-se da constatação de que a tradição do Choro é frequentemente narrada como encontro harmonioso de duas matrizes, a europeia de salão e a afro-brasileira, narrativa que apaga a assimetria que a constitui. Mobilizando o conceito de hibridação de García Canclini, a noção de colonialidade do poder de Aníbal Quijano e a crítica de Lélia Gonzalez ao mito da democracia racial, argumenta-se que a roda é menos um espaço de fusão e mais um espaço de negociação desigual, no qual a síncope de herança afrodiaspórica negocia presença em um ambiente que a quer domesticada. Em diálogo com as noções de tradição inventada, em Hobsbawm, de memória incorporada, em Connerton, e de performance participativa, em Turino, a roda é compreendida como prática corporal de transmissão que veicula, junto à técnica musical, uma hierarquia racializada. A pesquisa, de natureza histórico-documental, apoia-se na bibliografia sobre o Choro e em fontes do período, com destaque para o inventário de instrumentistas reunido por Alexandre Gonçalves Pinto, de 1936. Conclui-se que ler a roda sob chave decolonial ilumina dimensões da tradição do Choro que a abordagem estritamente historiográfica não alcança.
Palavras-chave. Choro, Roda, Ritual, Hibridação, Colonialidade.