A canção como resistência: negritude e ancestralidade em Cátia de França
Palavras-chave:
Cátia de França, Negritude, Candomblé, Toque do vassi, Etnomusicologia decolonialResumo
Resumo: Este artigo analisa a canção "Negritude", de autoria da compositora, cantora e multi-instrumentista paraibana Cátia de França, compreendendo-a como manifesto político, estético, identitário e afro-religioso. Inicialmente apresentada ao público na década de 1970, a faixa ganha nova densidade sonora no álbum No Rastro de Catarina (2024), no qual a artista articula memória familiar, ancestralidade negra, crítica decolonial e experimentação musical. A partir da revisão de dados históricos, líricos, críticos e musicológicos mobilizados no artigo, discute-se como a obra afirma a negritude para além da dimensão discursiva, incorporando também saberes oriundos do Candomblé. Nesse sentido, destaca-se a transposição do toque do vassi para a bateria, procedimento que desloca um padrão rítmico sagrado dos atabaques e do agogô para o aparato instrumental moderno, tensionando hierarquias entre música popular, ritualidade afro-brasileira e conhecimento acadêmico. Assim, "Negritude" é interpretada como uma prática de resistência ao racismo estrutural, à intolerância religiosa e ao epistemicídio cultural, reafirmando a centralidade das matrizes africanas e nordestinas na construção da música brasileira contemporânea.