ACERVOS SONOROS INDÍGENAS
Um Caminho Apyap para a Museologia da Escuta
Palavras-chave:
Musicologia, Etnomusicologia, Acervos Sonoros, Kamayurá, Acústica EcológicaResumo
Este artigo apresenta uma breve reflexão sobre a problemática em uma curadoria de acervos sonoros indígenas, a partir da densa etnomusicologia Kamayurá desenvolvida pelo professor Dr. Rafael José de Menezes Bastos. Tomando como base o sistema acústico descrito em O Mundo Acústico dos Kamayurá (1977) e expandido em A Musicológica Kamayurá (1978), argumento que a escuta ocupa, epistemologicamente, uma posição central na constituição do conhecimento, da memória e da organização social entre os povos xinguanos. Em contraste com a tradição museológica conservadora — historicamente orientada pela visualidade e pela materialidade dos objetos —, o modelo que defendo neste artigo sugere a fundação de uma Museologia da Escuta. Esta abordagem implica compreender o patrimônio sonoro não apenas como um documento ou registro em suporte estático, mas como um processo vivo e relacional de produção de significado. Na análise que apresento, evidencio que categorias nativas como ihu (som), anup (ouvir), nheeng (linguagem), maraka (música) e nanuyte (aquele que não ouve) constituem uma sofisticada gnosiologia sonora como um núcleo de entendimento. Esses conceitos dos povos Kamayurá oferecem caminhos para reformularmos as práticas de amostragem, documentação, preservação e curadoria decolonizada de acervos sonoros indígenas.