A sobrevivência de um romance tradicional no reisado Discípulo do Mestre Pedro
memória e patrimônio histórico-musical
Resumo
Uma análise do repertório do Reisado dos Irmãos, Tesouro Vivo do Estado do Ceará, revela a sobrevivência de peças tradicionais registradas em partitura por Mário de Andrade em 1928. O objetivo do trabalho é identificar as relações entre a peça “Ô mulher formosa, cadê teu marido” com o romanceiro tradicional, e discutir os processos de transmissão, adaptação e ressignificação desse repertório no contexto dos folguedos nordestinos. Metodologicamente, a pesquisa baseia-se na análise comparativa de fontes históricas, musicais e etnográficas. Os resultados demonstram que a peça corresponde a um fragmento do romance tradicional O Cego, documentado em Portugal por Almeida Garrett em manuscrito iniciado em 1824, e permanecendo em circulação até o presente em diferentes folguedos nordestinos. Constata-se a circulação da peça inserida no reisado na década de 1890 em Alagoas, transcrevendo Mário de Andrade a partitura de uma variante em 1928 inserida em uma chegança de mouros. Outras fontes confirmam a presença da peça em ampla área entre Bahia e Rio Grande do Norte e suas ressignificações e adaptações aos contextos de folguedos como o reisado, chegança de mouros e fandango. Mapeada sua entrada no Cariri a partir de Oswald Barroso e documentação de campo, confirma-se ser a dramatização de romances populares um dos procedimentos estruturadores de nossas danças dramáticas e discutem-se as estratégias enunciativas mobilizadas para tal. Conclui-se pela necessidade de se apontar o papel de salvaguarda patrimonial cultural e musical desempenhado pelos folguedos populares, e de se fomentarem ações concretas para seu registro e preservação.