Entre o baile e a rave
preconceito musical e disputas de legitimidade nas músicas eletrônicas periféricas
Palavras-chave:
Etnomusicologia, Música Eletrônica Perifêrica, Preconceito Musical, Legitimidade Cultural, Funk CariocaResumo
Este trabalho analisa processos de preconceito e disputas de legitimidade dirigidos a práticas de músicas eletrônicas periféricas, tomando como eixo comparativo o Funk Carioca e o Psytrance. Inserido no campo da Etnomusicologia das Bases, parte-se da compreensão dessas manifestações não apenas como gêneros musicais, mas como práticas socioculturais que articulam tecnologias sonoras, corporalidades, territorialidades e formas específicas de sociabilidade. O objetivo é compreender de que maneira determinados sons passam a ser associados a categorias como perigo, desordem, criminalidade ou desvio moral, revelando mecanismos mais amplos de classificação social. Metodologicamente, o trabalho articula revisão bibliográfica sobre histórias e genealogias das culturas eletrônicas periféricas com uma análise crítica dos discursos de rejeição e estigmatização direcionados a essas práticas. O debate fundamenta-se especialmente nas contribuições de Bourdieu sobre gosto e distinção social, de Stuart Hall sobre representação e produção da alteridade, e em estudos sobre a criminalização do funk e as culturas eletrônicas contemporâneas. Os resultados indicam que os julgamentos musicais frequentemente extrapolam aspectos formais da produção sonora e operam como formas de classificação de sujeitos, corpos e territórios. Ainda que o Funk Carioca e o Psytrance ocupem posições distintas nas hierarquias sociais e sejam atravessados por processos históricos específicos, ambos evidenciam como determinadas práticas musicais podem ser transformadas em signos de ameaça ou inadequação social. Conclui-se que as disputas em torno da música são também disputas acerca de pertencimento, poder e legitimidade cultural.