Gravações comerciais do início do século XX como fontes de estudo entre música e racialização
um estudo das linhas de cor sonoras aplicadas ao contexto brasileiro
Palavras-chave:
Racialização sonora; arquivos sonoros: etnomusicologia.Resumo
Este artigo investiga como as gravações comerciais realizadas no Brasil em formato de 78 rpm podem ser utilizadas como fontes para o estudo das relações entre música e racialização. A partir da análise de fonogramas em 78 rpm, defende-se que a indústria fonográfica brasileira foi atravessada, desde seus primórdios, pela construção de “linhas de cor sonoras” – dispositivos que atribuíam valores pejorativos a timbres, vozes e repertórios associados a artistas e práticas musicais afro-brasileiras. Apesar disso, argumenta-se que o período das gravações mecânicas, marcado pelo predomínio da Casa Edison, apresentou certa porosidade que permitiu a inserção de práticas musicais afro-brasileiras no circuito comercial, ainda que mediadas por estratégias de “domesticação” e controle sonoro. O artigo combina abordagens da etnomusicologia, dos estudos culturais e da história social da música, dialogando com autores como Jennifer Stoever (2016) e Santos Santos (2020), além de recorrer a registros fonográficos históricos, charges de época e fotografias de grupos musicais negros. Conclui-se que tais gravações, embora inseridas em uma lógica comercial, constituem documentos históricos valiosos para a compreensão dos processos de construção e contestação de identidades raciais por meio do som na sociedade brasileira do início do século XX.