Ressonância, gesto e materialidade sonora na escrita para trompa de Silvio Ferraz
Resumo
Este artigo investiga a escrita para trompa de Silvio Ferraz a partir da análise das obras A Flor e o Cristal (1986–1988), para trompa e piano, e Imagem Reversa (2025), para trompa e eletrônica. O objetivo é compreender continuidades e transformações nos procedimentos composicionais desenvolvidos ao longo de quase quatro décadas, com atenção especial ao papel da série harmônica, da ressonância, da espacialização sonora e das relações entre composição e performance. A pesquisa adota uma abordagem analítico-interpretativa de caráter morfológico e processual, fundamentada em conceitos relacionados à materialidade sonora e à escuta espectromorfológica. As análises articulam observações sobre o material musical, documentos composicionais, informações relativas aos processos de criação das obras e reflexões decorrentes da preparação interpretativa, relacionando aspectos estruturais da escrita às estratégias composicionais e às demandas performáticas propostas ao intérprete. Os resultados evidenciam a permanência de princípios centrados na transformação contínua do material sonoro, na utilização da série harmônica como matriz organizadora e na incorporação de procedimentos de reescrita de materiais preexistentes. Ao mesmo tempo, observam-se transformações significativas na exploração da ressonância, que se desloca de uma interação predominantemente acústica entre trompa e piano para uma espacialização expandida mediada pela eletrônica. Conclui-se que a escrita para trompa de Silvio Ferraz articula composição e performance como dimensões indissociáveis, atribuindo ao intérprete papel fundamental na construção da forma musical e da experiência sonora. A análise do processo interpretativo evidencia ainda que os desafios técnicos e sonoros propostos pelas obras participam diretamente da constituição de sua forma e materialidade sonora.