Entre o som e a cena
o gesto coreográfico em Musique de Tables
Palavras-chave:
Gesto, Coreografia, Análise Musical, Musique de TablesResumo
O texto aborda a evolução da performance musical a partir da segunda metade do século XX. Os autores destacam como o movimento físico do músico transcendeu sua função estritamente utilitária de produção sonora, tornando-se um elemento coreográfico e composicional autônomo que aproxima a música da dança e do teatro. Para ilustrar essa mudança estética, os autores analisam detalhadamente a obra Musique de Tables (1987), do belga Thierry de Mey. Escrita para três percussionistas que tocam sobre pequenas mesas de madeira amplificadas, a peça inova ao colocar a coreografia das mãos em primeiro plano. Entre os pontos apresentados na análise, destacam-se: 1) a visualidade dos gestos: movimentos de raspar as mãos, dar petelecos ou fazer movimentos circulares quase silenciosos são os verdadeiros temas da composição, possuindo tanta ou mais importância que o som gerado; 2) apesar da forte essência visual, a macroforma da peça (dividida em 7 seções) é estruturada seguindo lógicas rigorosas da tradição musical clássica. Os gestos são desenvolvidos através de técnicas de fragmentação, repetição e contraponto; 3) a obra representa um ponto limite onde a performance se emancipa, gerando uma "música para os olhos" que ocorre tanto no espaço físico quanto na mente do espectador.