D’além de Trás-os-Montes, bem pra lá do São Francisco
o sertão “medieval” de Elomar Figueira Mello em O Rapto de Juana do Tarugo e Acalanto
Resumo
Este artigo investiga a construção de um imaginário medieval no Cancioneiro de Elomar Figueira Mello, tomando como objeto de análise as canções O Rapto de Juana do Tarugo (1979) e Acalanto (1973). Inicialmente, discutimos a recorrente associação entre sertão nordestino e heranças ibéricas medievais, situando-a no âmbito das tradições inventadas e das representações históricas produzidas por artistas e intelectuais brasileiros entre os séculos XIX e XX. Em seguida, analisamos como Elomar mobiliza e reelabora esse repertório simbólico em sua obra. Nas duas canções examinadas, observamos a presença de personagens, cenários e narrativas vinculados ao universo cavaleiresco e feudal, bem como de procedimentos musicais que contribuem para a construção de uma sonoridade percebida como antiga. A análise demonstra, contudo, que tais referências não correspondem à sobrevivência de uma cultura medieval no sertão, mas à articulação de elementos oriundos de temporalidades diversas, incluindo a literatura romântica, a música ibérica, a seresta brasileira e práticas composicionais dos séculos XIX e XX. Conclui-se que o medievalismo elomariano constitui uma elaboração estética e simbólica que aproxima espaços, tempos e tradições distintos, produzindo uma representação do sertão fundada menos na preservação de um passado histórico do que na sua permanente reinvenção, aos moldes do que ele denomina por Sertão Profundo.