Esperança na Deséspérance
preenchendo a lacuna da Primeira Sonata para violoncelo e piano de Heitor Villa-Lobos
Abstract
O presente texto trata de um recorte de dissertação que investiga a Première Sonate-Fantaisie – Deséspérance (1913), de Heitor Villa‑Lobos, originalmente composta para violino e piano, a partir de uma proposta inédita de transcrição para violoncelo e piano. O trabalho tem como principal objetivo a elaboração de uma transcrição e um estudo de possibilidades interpretativas da obra com vistas a preencher a lacuna deixada pelo desaparecimento da Primeira Sonata para violoncelo e piano do compositor, obra mencionada em registros históricos, mas cuja partitura foi extraviada. Considerando Villa‑Lobos como violoncelista e compositor profundamente ligado ao instrumento, a pesquisa propõe ampliar o repertório brasileiro do violoncelo por meio de uma abordagem transcritiva fundamentada em critérios idiomáticos, contextualização histórica e perspectivas interpretativas. Assim, o trabalho se insere no campo da Performance e articula a análise musicológica, estudo estilístico e a reflexão interpretativa. Inicialmente, contextualiza-se a obra no período de formação estética de Villa‑Lobos, marcado por forte influência da música francesa do início do século XX, especialmente de compositores como Debussy, Ravel, Fauré, bem como o alto romantismo de César Franck. A partir dessa contextualização, a dissertação analisa elementos estruturais, harmônicos e motívicos da Sonate-Fantaisie, com destaque para o uso recorrente do chamado five-note motive, na construção de procedimentos cíclicos, de transformação temática, aliado à presença de escalas não diatônicas e recursos nitidamente impressionistas. Ademais, a transcrição proposta mantém a parte pianística original e se concentra na adaptação da escrita violinística ao violoncelo, e traz adaptações relativas à tessitura, sonoridade e caráter vocal do novo meio. Assim, são discutidas decisões editoriais relacionadas a registro, possibilidades de dedilhados, uso de cordas duplas, estruturação de acordes, articulações e mudanças de posição. Ademais, a construção interpretativa e fraseológica, se pauta na dimensão da Teoria da expressividade métrica de Aquino, que se apresenta como ferramenta determinante a essas escolhas.