Rodas de choro e dinâmicas de gênero:
solos, silêncios e resistências
Keywords:
Música e gênero, Mulheres no choro, musicologia, Diversidade de GêneroAbstract
Esta comunicação apresenta uma análise longitudinal da trajetória de Helena, nome fictício usado para uma musicista participante de rodas de choro, focando nas dimensões de gênero, raça e classe em sua experiência no campo da música brasileira e no choro, especificamente. A pesquisa parte de entrevistas realizadas em 2020 e 2025, com o mesmo roteiro para análise comparativa das transformações em sua percepção e vivência como mulher instrumentista em ambiente historicamente masculino. Em 2020, Helena sentia-se acolhida nas rodas de choro, motivada pela prática musical e interação com outros músicos, sem identificar obstáculos de gênero. Em 2025, sua consciência crítica se aprofunda: reconhece barreiras estruturais, como desvalorização, humilhação, assédio e falta de reconhecimento, especialmente ao apresentar composições próprias ou aprender novos instrumentos. Helena destaca o tratamento diferenciado entre mulheres e homens, evidenciando que, mesmo com maior domínio técnico, mulheres enfrentam maior resistência e menor acolhimento em comparação aos homens em estágios iniciais. O estudo mostra que essas dificuldades refletem dinâmicas coletivas de exclusão atravessadas por marcadores sociais. Os estudos de gênero são elemento central, não apenas simbólico, mas motor de transformação social. Compartilhar experiências e ocupar espaços historicamente negados legítima e amplia a presença das mulheres no choro, inspirando outras a seguir trajetórias semelhantes. A luta por reconhecimento e equidade nas rodas de choro é individual e coletiva. Valorizar narrativas de mulheres, fortalecer redes de apoio e promover práticas inclusivas são essenciais para transformar o cenário musical da música brasileira.
Downloads
References
ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. 4. ed. San Francisco: Aunt Lute Books, 2012. p. 164.
ANZALDÚA, Gloria. Speaking in Tongues: A Letter to Third World Women Writers. In: MORAGA, Cherríe; ANZALDÚA, Gloria (org.). This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color. 4. ed. Albany: State University of New York Press, 2015. p. 168.
BERTHO, Renan Moretti. Performance, significado e interação no musicar participativo/apresentacional de uma roda de choro. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 73, p. 83-99, 2019. Disponível em: https://revistas.usp.br/rieb/article/view/161908. Acesso em: 28 jul. 2025.
BUTLER, Judith P. Problemas de gênero: feminismos e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização: Flávia Rios; Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pensamento feminista brasileiro: Formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.
HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Tradução Bhuvi Libanio. 18. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2022.
LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. Tradução Luiza Sellera. São Paulo: Cultrix, 2019.
NASCIMENTO, Beatriz Rodrigues. A (não) Presença das Mulheres nas Rodas de Choro. 2020. 57 f. Trabalho de Conclusão de Curso – Instituto de Artes e Design, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2020.
MELLO, Denise. A mulher na canção: a composição feminina na era do rádio. São Paulo: Machine Editora, 2022.
MURGEL, Ana Carolina Arruda de Toledo. A canção no feminino, Brasil, século XX. Labrys (Edição em Português. Online), v. 18, p. 1-33, 2010.
PERROT, Michelle. Minha História das Mulheres. Tradução Angela M. S. Correa. São Paulo: Contexto, 2007.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento; Justificando, 2017.
ROSA, Laila; NOGUEIRA, Isabel. O que nos move, o que nos dobra, o que nos instiga: notas sobre epistemologias feministas, processos criativos, educação e possibilidades transgressoras em música. Revista Vórtex, Curitiba, v. 3, n. 2, p. 25-56, 2015. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/index.php/vortex/article/view/887. Acesso em: 28 jul. 2025.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, v. 20, n. 2, p. 71-99, jul./dez. 1995.