“O grave todo mundo sente igual!”
Relações entre o musicar de paredões e a musicalidade Surda
Keywords:
Musicalidade Surda, Paredões de som, Funk brasileiro, Teoria Histórico-Cultural, Cognição incorporadaAbstract
Este artigo investiga as relações entre o musicar de paredões e a musicalidade Surda, propondo que esses musicares periféricos baseiam-se em relações nas quais a modalidade auditiva não é indispensável. O ponto central é escuta incorporada: a ênfase nos graves de alta pressão sonora, características poéticas e técnicas dos sound systems, induz a uma escuta que se dá pelo corpo todo, e não apenas pelos ouvidos. Em hipótese, essa é uma experiência estética comum a ouvintes e Surdos. A base teórica articula dois referenciais complementares: a defectologia de Vigotski (2022), que situa a deficiência no meio social e afirma que o desenvolvimento humano é pleno independente de impedimento sensorial; e a Teoria da Autopoiese de Maturana e Varela (2004), que entende a percepção como um processo ativo, corporal e situado no mundo. A partir desses referenciais, são discutidas tecnologias assistivas desenvolvidas ou aplicadas no Brasil voltadas à musicalidade Surda, entre elas o CromoTMusic, o Ludwig, o Musicalmente Surdo, e a proposta de Finck (2009) com o Bass vibrations. Em seguida, apresenta-se o SurdoSystem, desenvolvido no NICS-Unicamp desde 2025, que reúne subwoofers, superfícies vibrotátil, bexigas infláveis e televisores analógicos em uma instalação artística de escuta participativa e coletiva. Conclui-se que há pontos de contato relevantes entre a musicalidade Surda e o musicar de paredões, que são um território fértil para pensar uma musicalidade inclusiva que parte da subjetividade Surda, e não da adaptação de práticas ouvintes.