Rumo a uma etnografia marxista do trabalho musical
o músico de cachê, da aparência necessária à possibilidade real
Palabras clave:
Etnografia marxista, Lukács, Trabalho musical, Economia do cachê, AlienaçãoResumen
Apresenta-se uma proposta metodológica de fundamentação marxista para a etnografia do trabalho musical, aqui posta à prova no trabalho do “músico de cachê”, cuja condição se define pela atomização e ausência de organização coletiva. Fundada na obra de maturidade de György Lukács, a proposta tece comparações pontuais com o método do estudo de caso ampliado de Michael Burawoy. Parte-se de uma exigência do próprio método de Marx: não se entra diretamente pela contradição, pois ela não se manifesta de modo imediato, mas sob uma forma de aparência necessária que a inverte e oculta. O ponto de entrada empírico só pode ser essa imediaticidade cotidiana — o mesmo dado que Burawoy observaria. O que muda é a direção do trabalho: em vez de estender o observado do micro ao macro, o método regride do imediato cotidiano às mediações da reprodução social que o produzem. Articulam-se duas camadas: uma ontológica, do Lukács tardio — o trabalho como protoforma do ser social, o cotidiano como solo da reflexão, a alienação como possibilidade permanente que se realiza em formas históricas determinadas, e a ideologia em sentido funcional; e uma gnoseológica, de Marx e Kosík — do concreto sensível ao concreto pensado, pela destruição da pseudoconcreticidade. O procedimento etnográfico central é a regressão da imediaticidade cotidiana à possibilidade real inscrita na situação. Formulam-se cinco princípios e um procedimento em quatro momentos, submetidos a um teste empírico: o músico de cachê. Argumenta-se que a atomização não é obstáculo, mas a forma histórica de alienação do trabalho musical — a relação de classe vivida como biografia.