Indícios gregorianos nos martelos da cantoria de viola
Resumen
À luz dos documentos históricos mormente relacionados à Companhia de Jesus que relatam o uso e o ensino do canto gregoriano por membros e associados a ordens católicas no processo de catequese de ameríndios durante os primeiros séculos do Brasil colonial, desde o princípio do século XX, surgiram textos musicológicos indicando o que seriam vestígios da música litúrgica romana em características composicionais de repertórios nacionais autóctones orais. Embora não se restringindo totalmente, tais traços foram sobretudo reconhecidos em culturas musicais típicas ou oriundas da região Nordeste, concernentes a desenho melódico, escala e ritmo. Tendo tais dados históricos e tais apontamentos em vista, a presente investigação se propôs a, bem como desenvolver um estado da arte sobre o debate acadêmico, sugerir o que seria um resíduo pontual da música da Igreja de Roma na música nordestina, identificando similaridades composicionais entre as fórmulas recitativas para a poesia solene do rito cristão e as melodias nas quais os repentistas da cantoria de viola improvisam os versos decassílabos dessa prática poético-musical. Para tanto, analisou-se transcrições de martelos agalopados e motes em dez de desde o princípio do século XX discriminando-se o que seriam os segmentos análogos aos elementos constitutivos dos tons gregorianos e distribuindo-os segundo as escalas e os âmbitos dos modos eclesiásticos. Embora não tivesse sido possível alegar convictamente ligação histórica, foi entendido que tais coincidências sobrepostas poderiam ser interpretadas como potenciais vestígios ainda não tão difusos e dissolvidos da pretérita perpetuação do repertório sacro entre a população brasileira.