O disco O canto dos escravos e suas vívidas contradições
Palabras clave:
O canto dos escravos, Clementina de Jesus, Aluízio Falcão, Marcus Vinícius, Marcus Pereira.Resumen
. Este trabalho vem como desdobramento do primeiro eixo de minha tese de doutorado sobre a cantora Clementina de Jesus. Os últimos anos de Quelé foram marcados pela luta material e física em situação de precariedade. Nesse sentido, o título de seu último disco, O canto dos escravos, soa feito uma ironia dolorosa. Todavia, a contribuição musical desta obra me leva a investigar os detalhes de sua concepção. Adentro, assim, o trabalho dos produtores Aluízio Falcão e Marcus Vinícius de Andrade, o contato de ambos com a histórica gravadora Marcus Pereira e o arcabouço musicológico com o qual estes profissionais estavam adaptados a trabalhar. Com isso, busco elucidar o problema que se tensiona, quando nos deparamos com o contexto do disco: como se deu o contato de Falcão e Marcus Vinícius com as matrizes culturais negras no Sudeste? Em sendo O canto dos escravos fruto do levantamento musicológico de Aires da Mata Machado Filho em O negro e o garimpo em Minas Gerais, por que os produtores optaram por Clementina, Doca e Geraldo Filme, representantes do samba no Rio e em São Paulo, para figurarem como as principais estrelas do fonograma? As contradições terminam por revelar um complexo entremear de fatores que perpassam, desde a luta da discografia cultural (termo usado por Aloísio), à ressignificação natural das musicalidades negras. Em paralelo, o apagamento inerente das tradições e a negligência para com o corpo negro, feminino e idoso, aqui encarnado na personagem histórica de Clementina de Jesus, em seus derradeiros tempos.